Por Equipe Viver Bem Sóbrio · Atualizado em outubro de 2026
Sentir arrependimento depois de começar o tratamento é comum e não significa que a decisão foi errada. No arrependimento, internação, dependência química e saudade de casa se misturam: a pessoa queria mudar, mas também sente falta da vida antiga, inclusive da substância. A melhor resposta da família é acolher o sentimento, sem discutir e sem desistir junto, e levar a conversa para a equipe, que sabe trabalhar essa dúvida dentro do tratamento.
Arrependimento: internação, dependência química e ambivalência
Ambivalência é querer duas coisas opostas ao mesmo tempo. No tratamento da dependência, ela é esperada: a pessoa quer parar e quer continuar usando; quer estar ali e quer voltar para casa. Abordagens usadas por profissionais da área, como a entrevista motivacional, partem justamente do reconhecimento dessa ambivalência e trabalham para que a própria pessoa encontre seus motivos para mudar.
O arrependimento costuma aparecer em frases como:
- “Eu não precisava disso, não estava tão ruim assim.”
- “Vocês me convenceram num momento de fraqueza.”
- “Aqui não é lugar para mim, os outros estão bem pior.”
- “Eu consigo parar sozinho em casa.”
Essas frases não são mentira nem manipulação, necessariamente. São a parte da pessoa que ainda está presa ao hábito falando mais alto. E elas convivem com a outra parte, a que pediu ajuda.
Por que o arrependimento aparece depois da decisão
Alguns motivos frequentes:
- O alívio inicial passa. No momento da crise, buscar ajuda parece urgente. Dias depois, com a crise mais distante, o problema parece menor.
- A rotina pesa. Regras, horários e convivência com estranhos cansam.
- A substância faz falta. A vontade de usar pode reaparecer e distorcer a percepção do que é necessário.
- A vergonha cresce. Estar internado pode ser sentido como um rótulo.
- Problemas lá fora preocupam. Trabalho, contas, filhos, relacionamento.
Se o desconforto é físico ou ligado à adaptação dos primeiros dias, veja nosso texto sobre o desconforto nos primeiros dias de internação.
Como responder quando ele diz que se arrependeu
O objetivo não é ganhar a discussão. Entre os princípios da entrevista motivacional descritos na literatura científica estão evitar a argumentação e acompanhar a resistência, em vez de confrontar. Na prática, para a família, isso vira atitudes simples.
Escute e devolva o que ouviu
“Você está sentindo que não precisava estar aí e que dá conta sozinho. É isso?” Repetir com suas palavras mostra que você ouviu e baixa a defesa.
Reconheça os dois lados
“Uma parte de você quer ir embora. E uma parte de você pediu ajuda há poucos dias. As duas são verdadeiras.” Isso abre espaço para a pessoa pensar, em vez de reagir.
Lembre os motivos dele, não os seus
Use o que ele mesmo disse quando aceitou se tratar: “Você me falou que queria voltar a dormir, recuperar a confiança no trabalho e estar presente para as crianças.” Motivos próprios pesam mais do que cobranças da família.
Evite o que costuma piorar
- sermões, ameaças e listas de erros do passado;
- frases de culpa, como “depois de tudo o que fizemos por você”;
- prometer buscá-lo se ele continuar se sentindo mal;
- concordar só para encerrar a conversa.
Leve a conversa para a equipe
Diga claramente: “Isso que você está sentindo é importante. Vamos conversar com a equipe sobre isso.” Avise os profissionais sobre o que ouviu. O arrependimento é material de trabalho terapêutico, e a equipe pode ajustar a abordagem, rever metas e conversar sobre os medos por trás da vontade de desistir.
Ouviu “me arrependi” e não sabe como responder? Converse com a nossa equipe pelo WhatsApp ou pelo telefone (11) 99900-2928 para preparar a próxima conversa com o seu familiar.
O papel da equipe e o da família
A equipe trabalha a motivação de forma técnica, avalia riscos e conversa sobre o plano. A família não precisa ter todas as respostas. O papel dela é:
- manter um tom estável, sem oscilar entre “volta já” e “nunca mais fale nisso”;
- repassar à equipe o que ouviu e o que observou;
- participar das atividades para familiares, quando houver;
- respeitar que, na internação voluntária, a pessoa tem direitos garantidos pela Lei 10.216/2001, inclusive o de pedir por escrito o fim da internação.
Para entender como o regime voluntário funciona, consulte a página internação voluntária: como funciona. Se a conversa evoluir para um pedido de saída, a equipe pode discutir alternativas à internação que mantenham o cuidado.
Se for seu pai/mãe, cônjuge, filho adulto ou irmão
- Pai ou mãe: o arrependimento pode vir como “eu sou adulto, não preciso de babá”. Fale de igual para igual e evite o tom de bronca, que inverte papéis e gera resistência.
- Cônjuge: a pessoa pode transformar o arrependimento em cobrança sobre a relação (“você quis se livrar de mim”). Responda ao sentimento sem entrar na discussão do casamento naquele momento.
- Filho adulto: a tentação de resgatar é grande. Lembre que ele é adulto e que a decisão foi dele; o apoio é para que ele sustente a própria escolha.
- Irmão ou irmã: às vezes o irmão é a pessoa “neutra” a quem o familiar recorre para pedir ajuda para sair. Combine com o resto da família para que todos deem a mesma resposta.
Atenção a sinais de risco. Se o arrependimento vier junto com falas de desesperança, de morte ou de se machucar, avise a equipe imediatamente. Em emergência, ligue SAMU 192. Para apoio emocional, o CVV atende pelo 188, 24 horas.
Perguntas frequentes
O arrependimento significa que ele vai desistir?
Não necessariamente. A ambivalência é parte do processo de mudança, e muitas pessoas atravessam fases de dúvida e seguem no tratamento. O que ajuda é a dúvida ser conversada com a equipe, e não decidida no impulso.
Devo contar à equipe que ele disse que se arrependeu?
Sim. É uma informação importante para o trabalho terapêutico. Você pode dizer ao seu familiar que vai compartilhar porque quer que ele tenha apoio.
E se eu também me arrepender de ter apoiado a internação?
É comum a família sentir culpa. Converse com a equipe sobre suas dúvidas e procure apoio para você, como grupos de familiares ou atendimento psicológico.
Ele diz que consegue parar sozinho em casa. Pode ser verdade?
Algumas pessoas conseguem mudar em formatos menos intensivos, mas a avaliação de riscos é da equipe. Leve essa proposta para a conversa com os profissionais.
Quer apoio para atravessar essa fase com o seu familiar? Nossa equipe orienta a família, faz a triagem e indica a unidade mais próxima da rede no estado de São Paulo. Fale com a Central de Orientação, pelo WhatsApp ou pelo (11) 99900-2928.
Fontes
- Castro e Passos. Entrevista motivacional e escalas de motivação para tratamento em dependência de drogas. Revista de Psiquiatria Clínica, 2005
- Treatment for Alcohol Problems: Finding and Getting Help, NIAAA
- Lei nº 10.216/2001, Planalto
- CVV, Centro de Valorização da Vida
Conteúdo informativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de profissionais de saúde.
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