Por Equipe Viver Bem Sóbrio · Atualizado em outubro de 2026
A avaliação para transtorno do jogo é uma conversa clínica, sem julgamento, feita por psiquiatra, psicólogo ou equipe de um serviço como o CAPS, para entender como as apostas estão afetando sua vida (ou a de alguém da família), se há outros problemas de saúde junto e qual tipo de cuidado faz sentido agora. Não é interrogatório nem tribunal: quanto mais honesta a conversa, mais útil é o plano que sai dela.
Este guia serve para quem aposta e para quem acompanha. Se você ainda está tentando entender se o que vê em casa é um problema, comece pelos sinais descritos no artigo sobre vício em apostas online. Aqui o foco é o passo seguinte: pedir a avaliação e saber o que esperar dela.
Quem faz a avaliação para transtorno do jogo
Existem várias portas de entrada, e nenhuma é “errada”. O importante é começar.
- Unidade Básica de Saúde (UBS): segundo o Ministério da Saúde, é a porta de entrada para acolhimento e avaliação inicial no SUS, com encaminhamento ao CAPS ou a outros serviços quando necessário.
- CAPS: atende sofrimento psíquico mais intenso, com equipe de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais. Em várias cidades, como São Paulo, funciona em porta aberta, sem agendamento.
- Teleatendimento do Meu SUS Digital: o Ministério da Saúde oferece, no aplicativo ou na versão web, um autoteste e atendimento por videochamada, gratuito e sigiloso, para quem tem problemas com apostas.
- Psiquiatra: médico que faz o diagnóstico, avalia outras condições de saúde mental e, se for o caso, prescreve medicamentos.
- Psicólogo: avalia o comportamento, o contexto e as emoções ligadas ao jogo e conduz a psicoterapia.
- Clínica especializada em comportamentos compulsivos: reúne equipe multiprofissional e pode indicar acompanhamento ambulatorial ou modalidades mais intensivas, quando há indicação.
Antes de marcar em qualquer serviço privado, pergunte diretamente: “Vocês atendem transtorno do jogo?”. Nem todo lugar que trata álcool e drogas trabalha com apostas.
O que costuma ser perguntado na consulta
Cada profissional tem seu jeito, mas a avaliação geralmente passa por estes temas:
- Como as apostas começaram e como evoluíram: tipo de jogo, frequência, tempo gasto, horários.
- Perda de controle: tentativas de parar ou diminuir, vontade de apostar de novo para “recuperar” o que perdeu.
- Impacto financeiro: dívidas, empréstimos, cartões, dinheiro pedido a parentes ou amigos, bens vendidos.
- Impacto nas relações e no trabalho: brigas, mentiras, faltas, queda no rendimento.
- Sono, humor e ansiedade: tristeza, irritação, insônia, sensação de desespero.
- Uso de álcool e outras substâncias, inclusive durante as apostas.
- Pensamentos de morte ou de “sumir”, perguntados de forma direta e respeitosa.
- Rede de apoio: quem sabe do problema, com quem a pessoa pode contar.
Pode haver questionários curtos de rastreamento. Eles ajudam a organizar a conversa, mas não substituem a avaliação clínica.
Como falar das perdas sem vergonha
A vergonha é um dos maiores obstáculos para quem aposta. Muita gente minimiza valores ou esconde dívidas na primeira consulta e depois sente que o plano “não serviu”.
Algumas ideias que ajudam:
- Leve os números por escrito. Uma folha com dívidas, credores e valores aproximados poupa você de ter de “confessar” tudo olhando nos olhos de alguém.
- Comece pelo mais difícil. Dizer logo no início “tenho uma dívida que ninguém sabe” tira um peso e direciona a conversa.
- Lembre do sigilo. O profissional de saúde tem dever de sigilo. O objetivo dele é cuidar, não julgar.
- Separe culpa de responsabilidade. Reconhecer os prejuízos é parte do tratamento. Ficar se punindo não é.
Para a família: evite usar a consulta para “acusar”. Se você for junto, combine antes o que a pessoa quer contar sozinha e em que momento você pode complementar.
Já decidiu pedir ajuda? A rede Viver Bem Sóbrio atende pessoas com vício em apostas e pode orientar sobre a avaliação. Converse com a equipe pelo WhatsApp ou ligue para (11) 99900-2928.
Comorbidades: por que a avaliação olha além do jogo
O transtorno do jogo raramente vem sozinho. Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Dialogues in Clinical Neuroscience descreve associação frequente com uso problemático de álcool e outras substâncias, depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Os autores recomendam rastrear esses quadros de forma sistemática e tratá-los de maneira integrada, e não um de cada vez.
Na prática, isso significa que a avaliação pode identificar, por exemplo, que a pessoa bebe para aguentar as perdas ou aposta para fugir de uma tristeza que já existia antes. As duas coisas precisam de cuidado. Entenda melhor essa relação em dependência química e saúde mental.
Se houver risco agora: se a pessoa fala em morrer, se despediu de alguém ou está em crise intensa, não espere a consulta. Ligue para o CVV 188 (apoio emocional, 24 horas, gratuito), para o SAMU 192 ou vá à UPA ou pronto-socorro mais próximo.
O que vem depois da avaliação
Ao final, o profissional ou a equipe costuma apresentar uma proposta de cuidado. Ela pode incluir:
- Psicoterapia, frequentemente com abordagem cognitivo-comportamental, que tem a base de evidências mais sólida para o jogo.
- Acompanhamento psiquiátrico, sobretudo se houver depressão, ansiedade ou uso de substâncias associados.
- Medidas de proteção financeira combinadas com a família.
- Grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos.
- Tratamento mais intensivo, quando há risco, comorbidades graves ou o acompanhamento ambulatorial não foi suficiente.
Pergunte tudo o que não ficou claro: qual é a hipótese diagnóstica, qual a frequência dos atendimentos, como a família participa. A participação da família no plano tem um guia próprio em a família no tratamento do transtorno do jogo.
Se for seu pai/mãe, cônjuge, filho adulto ou irmão
- Pai ou mãe: em pessoas mais velhas, o jogo pode estar ligado a solidão ou a perdas recentes. Leve a lista de remédios em uso e fique atento a empréstimos consignados.
- Cônjuge: você pode ter sido afetado diretamente pelas dívidas. A consulta é sobre ele, mas você também merece apoio próprio.
- Filho adulto: ele decide se quer ou não ser avaliado. Ofereça ajuda para marcar, mas deixe que ele fale com o profissional.
- Irmão ou irmã: combine com o restante da família quem acompanha, para não dividir a conversa em versões diferentes.
Para uma visão geral das etapas do cuidado, visite a nossa Central de Orientação.
Perguntas frequentes
Preciso de encaminhamento para ser avaliado?
No SUS, você pode começar pela UBS, que encaminha quando necessário. Em muitas cidades o CAPS recebe sem agendamento. Em serviços particulares, basta marcar, mas confirme antes se atendem transtorno do jogo.
A família pode pedir a avaliação no lugar da pessoa?
A família pode buscar orientação para si mesma a qualquer momento. A avaliação clínica, porém, depende da participação de quem aposta, e funciona melhor quando ele concorda em ir.
Uma única consulta já define o diagnóstico?
Nem sempre. Às vezes são necessários alguns encontros, principalmente quando há depressão, ansiedade ou uso de álcool e drogas junto.
Vou ter de contar todas as dívidas?
É o mais recomendado. Valores escondidos costumam reaparecer depois e dificultam o plano. Contar tudo não é para ser julgado, é para receber ajuda proporcional ao problema.
Pronto para dar o primeiro passo? A rede Viver Bem Sóbrio, com sede em São Roque e clínicas no estado de São Paulo, faz a triagem, avalia o caso com cuidado e indica a unidade mais próxima. Conheça a nossa clínica para tratamento de vícios. Atendimento particular e por convênios; confirme a cobertura com a sua operadora e com a equipe. Falar com a equipe pelo WhatsApp · (11) 99900-2928
Fontes
- Agência Gov: campanha do Ministério da Saúde sobre apostas online e atendimento no SUS
- Sharma e Weinstein. Gambling disorder comorbidity: a narrative review. Dialogues in Clinical Neuroscience, 2025 (PMC)
- Prefeitura de São Paulo: Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)
- CVV: Centro de Valorização da Vida
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Comments are closed