A prevenção do suicídio em quem usa álcool ou drogas começa por um fato simples: o uso problemático de substâncias pode aumentar o risco de pensamentos e comportamentos suicidas, mas esse risco pode ser reduzido com atenção aos sinais, conversa sem julgamento e ajuda profissional. Se você está preocupado com alguém da família, saiba que perguntar, ouvir e buscar apoio faz diferença. Crises passam, e há tratamento e caminhos de cuidado.
Se há risco agora, não espere
- CVV 188: apoio emocional e prevenção do suicídio, ligação gratuita, 24 horas, com sigilo. Também há chat em cvv.org.br.
- SAMU 192: emergência médica, inclusive em caso de intoxicação por álcool ou drogas.
- UPA 24h ou pronto-socorro: se a pessoa estiver em perigo imediato, leve-a ou peça ajuda para levá-la ao serviço de emergência mais próximo.
- Se você mesmo está pensando em tirar a própria vida, ligue agora para o 188. Você não precisa passar por isso sozinho.
Por que o uso de álcool e drogas aumenta o risco
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a relação entre suicídio e transtornos mentais, especialmente a depressão e os transtornos por uso de álcool, está bem estabelecida. A agência de saúde mental e uso de substâncias do governo dos Estados Unidos (SAMHSA) descreve o uso problemático de substâncias como um dos principais fatores de risco para o comportamento suicida.
Alguns motivos ajudam a entender essa relação:
- Intoxicação. O álcool e outras drogas diminuem a capacidade de frear impulsos e de avaliar as consequências. Pensamentos que a pessoa não colocaria em prática sóbria podem ganhar força sob efeito da substância.
- Impulsividade. Ela é comum tanto no uso problemático de substâncias quanto em situações de crise suicida.
- Depressão e ansiedade. Muitas vezes aparecem junto com a dependência, e uma piora a outra. Entenda melhor essa relação em dependência química e saúde mental.
- Perdas acumuladas. Emprego, dinheiro, relações, moradia e autoestima costumam ser afetados pela dependência, e essas perdas pesam.
- Momentos de crise. Recaídas, brigas familiares, separações, problemas com a Justiça e dívidas podem trazer vergonha e desesperança intensas.
Isso não significa que toda pessoa que bebe ou usa drogas vai pensar em suicídio. Significa que a família deve olhar com atenção para o sofrimento que pode estar por trás do uso e lembrar que entender a diferença entre uso, abuso e dependência ajuda a dimensionar o problema.
Sinais de alerta que a família pode perceber
O Ministério da Saúde destaca que os sinais de alerta não devem ser considerados isoladamente, mas merecem atenção, principalmente quando aparecem juntos ou de forma persistente:
- Falas sobre morte ou suicídio, mesmo em tom de brincadeira, ou frases como “vou deixar vocês em paz”, “ninguém vai sentir minha falta” ou “não aguento mais”.
- Falta de esperança, sensação de ser um peso para os outros ou de que nada vai melhorar.
- Isolamento, afastando-se de pessoas, atividades e redes sociais de que gostava.
- Mudanças de comportamento que surgem ou pioram e se mantêm por semanas.
- Aumento do uso de álcool ou drogas, especialmente depois de uma perda ou de uma crise.
- Despedidas, como doar objetos importantes, organizar assuntos pendentes de forma repentina ou mandar mensagens de adeus.
- Calma repentina depois de um período de muita angústia, sem motivo aparente.
Se você percebeu esses sinais, confie na sua preocupação. É melhor perguntar e estar enganado do que deixar passar.
Como conversar sem julgamento
Muitas famílias têm medo de tocar no assunto e “dar a ideia”. Perguntar com cuidado se a pessoa está pensando em se matar não coloca essa ideia na cabeça dela. A OMS considera que quebrar o tabu em torno do tema é importante para a prevenção, porque o estigma afasta as pessoas da ajuda. Muitas vezes, a pergunta traz alívio: é a primeira chance de falar sobre o que está sentindo.
Algumas orientações, baseadas nas recomendações do Ministério da Saúde:
- Escolha um momento e um lugar calmos, de preferência quando a pessoa não estiver sob efeito de álcool ou drogas.
- Pergunte de forma direta e acolhedora: “Tenho notado que você está sofrendo. Você tem pensado em tirar a própria vida?”.
- Ouça mais do que fala. Não interrompa, não minimize (“isso é bobagem”) e não discuta se o sofrimento é justificado.
- Evite sermões sobre o uso de substâncias nesse momento. A prioridade é a segurança e o vínculo.
- Não prometa segredo. Diga que você se importa e que, por isso, vai buscar ajuda junto com ela.
- Incentive a busca de ajuda profissional e ofereça-se para acompanhar a pessoa à consulta ou ao serviço de saúde.
- Mantenha contato nos dias seguintes para saber como ela está.
Em crise: o que fazer agora
Se a pessoa disse que pretende tirar a própria vida, se tem um plano ou se você percebe risco imediato:
- Não a deixe sozinha. Fique com ela ou peça para alguém de confiança ficar.
- Ligue para o SAMU 192 ou leve a pessoa a uma UPA 24h ou pronto-socorro. Se houver intoxicação, informe o que ela usou, se souber.
- Afaste meios de se ferir. O Ministério da Saúde orienta que, se a pessoa mora com você, ela não tenha acesso a meios para provocar a própria morte, como medicamentos, armas e pesticidas. Guarde ou retire também bebidas alcoólicas e drogas, que aumentam a impulsividade.
- Procure apoio para você também. O CVV atende pelo 188 tanto quem está em crise quanto quem está tentando ajudar alguém.
- Mantenha a calma no tom de voz e evite discussões, ameaças ou cobranças sobre o uso naquele momento.
Se houver violência ou ameaça a outras pessoas, ligue também para a Polícia Militar, no 190.
Depois da crise: tratamento e prevenção do suicídio
Passado o momento mais agudo, o cuidado precisa continuar. Uma crise é um sinal de que a pessoa precisa de tratamento que olhe ao mesmo tempo para a saúde mental e para o uso de substâncias.
Caminhos possíveis:
- Avaliação com psiquiatra e psicólogo, para entender o risco, tratar depressão, ansiedade ou outros quadros e planejar o acompanhamento.
- Rede pública: Unidades Básicas de Saúde e CAPS, inclusive os CAPS AD, voltados a quem tem problemas com álcool e drogas.
- Tratamento para a dependência, ambulatorial ou com internação, conforme a gravidade. Conheça as opções de tratamento para uso problemático de drogas e veja como escolher o tratamento para dependência química.
- Plano de segurança, construído com a equipe, com sinais de alerta pessoais, pessoas para quem ligar e serviços de emergência.
- Envolvimento da família, com orientação sobre como apoiar sem vigiar o tempo todo.
Recuperar-se é possível. Muitas pessoas que passaram por crises graves encontraram, com tratamento e apoio, motivos e formas de seguir vivendo.
Cuidar de quem cuida
Acompanhar alguém que usa álcool ou drogas e que passou por uma crise suicida é exaustivo. Medo, culpa, raiva e cansaço são reações comuns. Você não é responsável sozinho pela vida de outra pessoa, e cuidar de si também é parte da prevenção.
- Divida a carga com outros familiares, amigos e profissionais.
- Busque grupos de apoio para familiares e acompanhamento psicológico, se possível.
- Respeite seus limites de sono, alimentação e descanso.
- Ligue para o CVV 188 quando precisar desabafar.
Leia mais sobre a saúde mental do familiar de quem tem dependência.
Como podemos ajudar
A Viver Bem Sóbrio acolhe famílias que convivem com o uso de álcool e drogas e com o sofrimento emocional que costuma vir junto. Podemos conversar, entender a situação e orientar sobre avaliação e tratamento. Temos sede em São Roque e uma rede de clínicas no estado de São Paulo; após a triagem, indicamos a unidade mais próxima. Em caso de risco imediato, procure antes o SAMU 192, uma UPA ou o CVV 188.
Fale com a nossa equipe pelo WhatsApp ou ligue para (11) 99900-2928.
Perguntas frequentes
Perguntar sobre suicídio pode incentivar a pessoa?
Não. Perguntar de forma direta e cuidadosa não estimula a ideia. Pelo contrário, abre espaço para que a pessoa fale do que sente e aceite ajuda.
Quem fala em se matar só quer chamar atenção?
Toda fala sobre suicídio deve ser levada a sério. Mesmo quando parece exagero, ela mostra sofrimento e é uma oportunidade de oferecer apoio e buscar ajuda.
O CVV atende familiares?
Sim. O CVV oferece apoio emocional a qualquer pessoa que queira conversar, pelo 188, de graça e 24 horas, e também por chat no site.
Se a pessoa parar de beber ou usar drogas, o risco acaba?
Parar o uso costuma ser um passo importante, mas não resolve tudo sozinho. Depressão, ansiedade e outras dificuldades podem continuar e precisam de tratamento. O acompanhamento deve seguir mesmo depois que o uso diminui.
Fontes
- Ministério da Saúde. Suicídio: prevenção. Acesso em 22/10/2026.
- Organização Mundial da Saúde. Suicide (fact sheet). Atualizado em 28/08/2026. Acesso em 22/10/2026.
- Organização Mundial da Saúde. Preventing suicide: a resource for media professionals, update 2023. Acesso em 22/10/2026.
- SAMHSA. Substance Use and Suicide: A Nexus Requiring a Public Health Approach. 2016. Acesso em 22/10/2026.
- CVV, Centro de Valorização da Vida. cvv.org.br. Acesso em 22/10/2026.
Por Equipe Viver Bem Sóbrio · Atualizado em outubro de 2026
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
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