Se alguém está inconsciente, com dificuldade para respirar, convulsionando, falando em se matar ou colocando outras pessoas em perigo, pare de ler e ligue agora para o SAMU 192. Em risco de suicídio, o CVV atende pelo 188, 24 horas. Este texto é para os outros momentos: quando a família não sabe se o que está vendo é uma emergência ou um sinal de que chegou a hora de buscar tratamento.
Essa dúvida é uma das mais comuns entre familiares de quem usa álcool ou drogas. A crise assusta, mas nem toda crise pede ambulância, e nem todo episódio “mais calmo” significa que está tudo bem. Saber diferenciar quando procurar atendimento de urgência de quando organizar uma avaliação para tratamento evita dois erros: demorar demais diante de um risco real, ou tomar uma decisão grande, como uma internação, no calor do susto.
Urgência e internação são coisas diferentes
Atendimento de urgência serve para tirar a pessoa do risco imediato: uma intoxicação grave, uma convulsão, uma crise psiquiátrica intensa, uma tentativa de suicídio. Quem faz isso é o SAMU, o pronto-socorro, a UPA ou o hospital geral.
A internação para tratamento da dependência é outra etapa. Ela é indicada por médico, depois de uma avaliação, e só quando os recursos fora do hospital não são suficientes — é o que diz a Lei 10.216/2001 e também o art. 23-A da Lei de Drogas, incluído pela Lei 13.840/2019. Em outras palavras: primeiro se cuida da vida, depois se planeja o tratamento.
Na prática, as duas coisas muitas vezes se encadeiam. Uma pessoa passa pelo pronto-socorro por intoxicação, é estabilizada e, a partir dali, a família percebe que precisa de um plano. Esse é um bom momento para conversar com profissionais, não um motivo para esperar a próxima crise.
Sinais de que é emergência: ligue 192
Procure socorro imediatamente se a pessoa apresentar qualquer um destes sinais:
- não acorda ou não responde quando chamada e tocada;
- respiração muito lenta, irregular, com ronco forte ou pausas;
- lábios ou pontas dos dedos arroxeados, pele fria e úmida;
- convulsão (abalos no corpo, perda de consciência);
- vômitos repetidos com sonolência intensa — há risco de engasgar;
- dor no peito, palpitação forte, febre alta ou agitação extrema depois do uso de estimulantes;
- confusão intensa, tremores fortes ou alucinações nos dias seguintes à interrupção do álcool;
- fala ou comportamento de quem pretende tirar a própria vida, ou uma tentativa já feita;
- agressividade com risco concreto para a própria pessoa ou para quem está perto.
Enquanto o socorro não chega: não deixe a pessoa sozinha, não dê banho frio, café, comida ou “remédio para cortar o efeito”. Se ela estiver desacordada e respirando, deite-a de lado. Separe, se puder, as embalagens do que foi usado ou ingerido para mostrar à equipe. Em casos de dúvida sobre uma substância ou mistura com medicamentos, o Disque-Intoxicação (0800 722 6001), ligado à Anvisa, orienta gratuitamente, 24 horas.
Para os detalhes das primeiras horas, veja nosso guia sobre intoxicação por álcool ou drogas. Sobre o risco de parar de beber de uma vez, leia síndrome de abstinência alcoólica: sintomas e quando é emergência.
Quando a crise é emocional
Álcool e drogas podem intensificar depressão, ansiedade e pensamentos de morte. Frases como “ninguém sentiria minha falta”, despedidas, doação de objetos pessoais ou acesso a meios para se ferir são sinais de alerta, mesmo quando ditos “em tom de brincadeira”. Nessas situações, ligue 192 ou leve a pessoa a um pronto-socorro; o CVV (188) também apoia a família. Aprofundamos esse tema em prevenção do suicídio em quem usa álcool ou drogas.
Sinais de que é hora de buscar avaliação para tratamento
Muitas situações graves não são emergências médicas naquele minuto, mas mostram que a família não deve mais esperar. Alguns exemplos:
- o uso aumentou e a pessoa já não consegue ficar sem a substância por um dia;
- idas frequentes ao pronto-socorro por intoxicação ou acidentes;
- tentativas de parar que terminam sempre em recaída;
- perda de emprego, dívidas, afastamento da família, problemas com a lei;
- sintomas de abstinência quando fica sem usar (tremor, suor, insônia, irritação intensa);
- sinais de depressão, ansiedade ou desconfiança que pioram com o uso;
- a família vive em alerta constante, sem saber o que encontrará ao chegar em casa.
Aqui, o caminho é marcar uma avaliação com profissional de saúde — médico, de preferência com experiência em dependência química ou psiquiatria — que vai indicar o nível de cuidado adequado: acompanhamento ambulatorial, serviço como o CAPS AD, ou internação. O texto quando internar um dependente químico ajuda a entender os critérios usados nessa decisão.
E quando a pessoa recusa ajuda?
Em emergência, o socorro não depende de consentimento: o SAMU e o pronto-socorro atendem quem está em risco. Já o tratamento da dependência sem a concordância da pessoa tem regras próprias. A internação involuntária pode ser pedida por familiar ou responsável legal, mas precisa ser decidida por médico registrado no CRM, depois de avaliar o tipo de droga, o padrão de uso e a impossibilidade de outras alternativas. Ela dura apenas o tempo necessário para a desintoxicação, com prazo máximo de 90 dias, e deve ser comunicada ao Ministério Público e à Defensoria Pública em até 72 horas (Lei 11.343/2006, art. 23-A).
Ou seja: a crise pode ser o gatilho para a família buscar orientação, mas a decisão por uma internação involuntária é médica e precisa seguir a lei. Explicamos o passo a passo em internação involuntária: como funciona e, para quem já fez o pedido, em como a família acompanha as etapas.
Depois que o risco passa: o que fazer nas próximas 48 horas
O período logo depois de uma crise costuma ser o de maior abertura para conversar — e também o de maior cansaço para todos. Algumas atitudes ajudam:
- Peça um resumo do atendimento. Se houve pronto-socorro, guarde o relatório de alta, exames e receitas. Eles serão úteis na avaliação.
- Anote o que aconteceu. O que foi usado, quanto, por quanto tempo, se houve mistura com remédios, e outras crises parecidas. Datas aproximadas bastam.
- Converse sem acusação. Fale do susto e do cuidado, não da culpa. “Fiquei com medo de te perder” abre mais portas do que “você sempre faz isso”.
- Proponha um passo concreto. Em vez de “você precisa se tratar”, ofereça “vamos marcar uma conversa com um médico esta semana?”.
- Retire riscos de casa. Bebidas, medicamentos sobrando, armas e, quando houver risco de suicídio, objetos que possam ser usados para se ferir.
- Cuide de quem cuida. Quem passou pela crise junto também precisa dormir, comer e conversar com alguém.
Perguntas frequentes
Posso levar a pessoa direto para uma clínica de reabilitação durante a crise?
Não é o caminho indicado. Uma clínica de tratamento não substitui o pronto-socorro em situações de risco à vida. Primeiro a pessoa precisa ser estabilizada; depois, com avaliação médica, se define o tratamento.
Chamar o SAMU vai fazer a pessoa ser internada à força?
O SAMU presta socorro e leva ao serviço de saúde adequado. Uma internação para tratamento da dependência é outra decisão, tomada por médico, com regras específicas previstas em lei.
E se a crise acontecer de madrugada e eu não tiver certeza?
Na dúvida, ligue 192. A central de regulação do SAMU é formada por profissionais que avaliam a situação pelo telefone e orientam o que fazer, inclusive quando não é preciso enviar ambulância.
Passou o susto e a família quer entender o próximo passo?
A equipe da Viver Bem Sóbrio orienta familiares sobre avaliação, modalidades de tratamento e convênios, e indica a unidade da nossa rede mais próxima de vocês no estado de São Paulo. Não atendemos emergências: em risco imediato, ligue 192.
Conteúdo informativo elaborado pela Equipe Viver Bem Sóbrio. Não substitui avaliação médica ou psicológica. Fontes: Lei 10.216/2001; Lei 11.343/2006, art. 23-A, incluído pela Lei 13.840/2019; Disque-Intoxicação (Anvisa/CFM).

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